Continuando com o nosso relato sobre a “História do Master System” (a primeira parte você pode ler clicando aqui), já vimos que o Sega Mark III era um videogame mais robusto do que o seu maior concorrente, o Famicom (ou NES), mas infelizmente ele não conseguiu superar o adversário em terras nipônicas.

Por mais frustrante que fosse, a Sega resolveu não desistir e pelo contrário, fez planos audaciosos para lançar o console no território onde a Nintendo reinava absoluta (até mais do que no Japão): os Estados Unidos. Certamente uma decisão que demonstrou coragem e personalidade.

O Sega Mark III foi então totalmente reformulado para entrar na residência dos norte-americanos e em outros países, rebatizado de Master System. Com uma cor preta e detalhes em vermelho, tinha um visual moderno e arrojado que realmente chamava a atenção de quem o via.

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olha só que bonitão o design ocidental do Master System

Assim, um ano após seu lançamento no Japão, o Master System chegava oficialmente aos EUA em 1986 pelo valor de US$ 149. A Sega of America era ainda uma empresa bem pequena e modesta, principalmente quando comparada com a Nintendo que já estava no mercado norte-americano há mais tempo.

De acordo com o livro “The Ultimate History of Video Games”, o setor de marketing da Sega of America consistia apenas de dois funcionários, Bruce Lowry e Bob Harris, e alguns administradores que trabalhavam em um escritório próximo à divisão de arcades da empresa.

Lowry e Harris fizeram o planejamento para apresentar o Master System ao público na feira Consumer Eletronic Show de 1986. Assim, o aparelho chegava às lojas em duas edições: uma mais simples (com apenas um controle e sem jogo) que custava US$ 139 e outra mais completa, que incluía a pistola Light Phaser (leia mais sobre ela aqui) e os games “Safari Hunter” e “Hang On” – O NES, que tinha pacotes similares, era US$ 10 mais barato em ambas edições.

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caixa da edição completa do Master System vendida nos EUA

Já de cara a Nintendo tinha várias vantagens sobre o concorrente além do preço, que iam desde um setor de marketing mais robusto até uma larga biblioteca de jogos disponíveis, encabeçados principalmente pelos hits “Super Mario Bros” e “The Legend of Zelda” – as pessoas iam até as lojas e pediam por “aquele videogame que tem o jogo do tal Mario”.

Para piorar, a Nintendo tinha contratos exclusivos com as desenvolvedoras mais populares da época, incluindo Bandai, Capcom, Konami, Hudson, Namco e Taito, que impediam que os jogos dessas empresas fossem lançados para o 8 Bits da Sega – só para lembrar, a Nintendo tinha na época um controle de 90% do mercado de videogames nos EUA.

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os controles do Master System em detalhe

Para distribuir o Master System nos EUA a Sega escolheu como parceira a Tonka Toys, uma conhecida fabricante de brinquedos no país, o que influenciou na escolha da Sega, achando que uma companhia já conhecida teria um apelo maior com o público local. Nos primeiros quatro meses, o Master System vendeu mais de 125 mil unidades – um número bem abaixo do rival, que vendeu mais de 1,1 milhão apenas nos primeiros 14 meses. Mas ao menos vendeu mais do que o Atari 7800, que ficou com cerca de 100 mil nos primeiros seis meses, de acordo com números levantados pelo livro “The Fall & Rise of Video Games”.

Na CES de 1987, realizada no mês de janeiro, Sega e Nintendo eram vizinhas de estandes, onde a primeira apresentava o seu Óculos 3D para o Master System – um periférico inexistente no rival e idealizado por Mark Cerny, designer de tecnologia da Sega na época. Abaixo você confere uma declaração dele de como teve a ideia para o dispositivo, que tinha um visual bem descolado e atraente para os jovens da época:

A Disneylândia de Tóquio havia aberto apenas alguns anos antes e era muito popular com os mais jovens que trabalhavam na Sega [of Japan]. Em uma de minhas muitas viagens lá eu vi um filme 3D chamado Capitão EO, estrelado por Michael Jackson … saindo de lá eu fiquei imaginando ‘será que podemos fazer jogos em 3D?’ Então eu decidi conversar com a Sega para fazer um periférico de cristal líquido para o Master System. Na verdade, foi muito fácil [falar com eles], a Sega estava procurando qualquer munição que pudessem usar na luta contra a Nintendo, e logo um protótipo aterrissou em minha mesa.

O óculos 3D foi um periférico moderadamente bem sucedido, fizemos cerca de seis jogos para ele, mas a história mais interessante tem a ver com um jogo que não foi feito. O protótipo [do óculos] chegou em nosso escritório antes de uma semana de férias. Eu construí uma demo com uma bola e raquete e fui embora. Enquanto eu estava fora, Yuji Naka [futuro criador do Sonic] construiu um motor de gráficos 3D – para o Master System! – e construiu uma demo de uma perseguição em um túnel. Ele é um programador incrível, sem dúvida. Infelizmente, a demo nunca se transformou em um jogo“.

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o Óculos 3D e a pistola Light Phaser

Mesmo com as tentativas da Sega em tentar deixar o aparelho mais atraente para os americanos, ele não estava saindo das prateleiras das lojas e a companhia teve que repensar suas estratégias. Assim, Hayao Nakayama, famoso CEO da Sega, resolve cortar os custos de marketing do Master System nos EUA e deixa tudo nas mãos da Tonka Toys (marketing e distribuição), com alguma assistência da Sega of America.

O problema é que a Tonka não tinha experiência em campanhas publicitárias para videogames, sem falar que eles traziam os jogos que não tinham grande apelo para o público americano, o que resultou em uma má administração do aparelho no país.

Lowry e Harris, os antigos marketeiros da Sega, se recusaram a se mudar para a sede de Tonka em Minnesota e saíram pouco tempo depois – Lowry inclusive foi trabalhar na Nintendo Europa posteriormente.

Enquanto tínhamos ido a todos os varejistas que eles [Nintendo] foram, nós simplesmente não tínhamos os recursos para competir contra o enorme orçamento de marketing deles, e a decisão foi tomada para procurar um parceiro. Nós nos juntamos com a Tonka e eles assumiram a distribuição e colocaram uma enorme quantidade de dólares em marketing – foram mais de US$ 30 milhões em marketing“, revelou em declaração Bruce Lowry.

Os 30 milhões resultaram em um acréscimo de 20% nas vendas, mas ainda assim com números muito baixos, não conseguindo vender 1 milhão de unidades em dois anos. Nesta época a Sega já planejava o seu próximo console, o primeiro 16 Bits caseiro da história, o saudoso Mega Drive (leia mais sobre a história dele clicando aqui).

No final de 1987 o console foi relançado no Japão (mesmo ano em que foi lançado na Europa) com o design e nome de Master System (e não mais Sega Mark III), mas como esperado não obteve sucesso algum e repetindo o fracasso do Mark III.

Já o contrato com a Tonka acabou em 1989, quando a Sega readquiriu os direitos de distribuição do Master System, mas a prioridade da empresa era o lançamento do Sega Genesis (o nome do Mega Drive nos EUA), o que aconteceu no final desse mesmo ano (e um após o lançamento no Japão).

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esse é o Master System II comercializado nos EUA no começo dos anos 90

O Genesis surpreendeu o mercado norte-americano e se tornou um sucesso de vendas graças a uma agressiva campanha de marketing e a notória liderança do CEO Tom Kalinske, e assim o Master System foi praticamente deixado de lado em favor do seu irmão mais novo. Em 1990, o Master System chegou a custar apenas US$ 70 com uma versão “Slim” mais compacta, sendo que no final de 1991 sua produção nos EUA se encerrou de vez, vendendo cerca de apenas mais de dois milhões de unidades na terra do Tio Sam.

No começo dos anos 90 a Nintendo foi obrigada pelas leis dos EUA a abandonar a exigência de jogos exclusivos de outras empresas em suas plataformas, infelizmente já era tarde demais para o Master System – mas o Mega Drive finalmente teria alguma vantagem disso, como podemos ver com o lançamento de “Castlevania: Bloodlines” – confira essa história clicando aqui.

E assim termina a história do nosso querido Master System na América do Norte, em um distante segundo lugar, mas com o seu irmão ganhando grande popularidade na região. Mas na Europa esse história foi bem diferente, a qual será o foco da terceira parte dessa aventura, portanto continue ligado em nosso blog e não perca, até lá!

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  • Álvaro Netto

    Penso que após o relançamento do Mega Drive, a Tectoy deveria fazer o mesmo com o Master System, retomando o console em sua versão clássica. No mais, parabéns pelo texto, que nos revela ótimas curiosidades daquela época.

  • Tectoy! relancem este lindissimo console! 😀 .. Master System pode ter sido inventado pelos japoneses, mas é o console mais Brasileiro de todos! .. ele merece isso não ? .. edição de 30 anos? hein hein hein ? .. kkkk no Aguardo! 😉

    • KyrushS

      Faço coro a este pedido.

  • And

    Adorei a história, muita coisa que eu não sabia! Aguardando ansiosa a terceira parte!

  • Nossa! Um motor gráfico 3D para o Master System? Imagina se ele tivesse sido lançado!