Aproveitando o sucesso que os jogos de pancadaria faziam nos fliperamas no final da década de 80 e a versão bem “meia – boca” que o rival Super Nintendo ganhou do clássico “Final Fight”, a Sega apresentou aos seus fãs o seu próprio beat’m up no final de 1991: “Streets of Rage” – saiba mais dessa história clicando aqui.

É claro que o grande sucesso que o game gerou deixou os fãs sedentos por mais aventuras nas “Ruas da Fúria“, o que felizmente não demorou a acontecer. O diretor do primeiro game, Noriyoshi Ohba – leia entrevista com ele -, foi chamado de volta para comandar a sequência, que também contava com o nome do compositor Yuzo Koshiro, que já estava famoso pelos seus trabalhos excepcionais em “Streets of Rage” e “The Revenge of Shinobi“.

Na época “Street Fighter II” já fazia um enorme sucesso e podemos perceber algumas influências no novo beat’em up da Sega – especialmente nas versões beta – como o uppercut shoryuken de Axel, o kikouken de Blaze e o “primo distante” de Zangief na forma do Max. Entre os inimigos temos outras referências, como o misto de Blanka com Vega em Zamza, o Kickboxer que lembra Sagat, o boxeador parecido com Balrog, entre alguns outros.

Noriyoshi Ohba, Ayano e Yuzo Koshiro – três nomes importantes  na produção de SoR2

Ayano Koshiro, a irmã de Yuzo, que atuou como um tipo de “diretora de arte” e que desenhou personagens e cenários do jogo, contou um pouco sobre o desenvolvimento do game em entrevistas especiais.

Tenho certeza que você jogou Street Fighter II — meu irmão e eu também jogamos. Nós gostamos tanto que compramos uma cabine e a instalamos no escritório da Ancient [empresa de games da família]. Gostávamos do jeito que eles lutavam em SF II, e surgiu compartilhada entre nós a visão da luta de Streets of Rage 2: dois jabs, seguido por um soco direto, algum golpe pesado, e então o inimigo voaria longe!“, relembra.

Se o jogo original já ostentava enorme qualidade, “Streets of Rage 2” conseguiu melhorar tudo que ele tinha. Há mais personagens, eles são maiores na tela, há mais fases e uma jornada maior, há mais variedade de inimigos e golpes, tudo apresentado em visuais de alto nível e claro, uma trilha sonora suprema de Yuzo Koshiro – segundo o próprio já revelou, o melhor trabalho em toda a sua carreira.

A supremacia sonora de “Streets of Rage 2” surpreendeu a todos quando chegou aos EUA em dezembro de 1992 (um mês após o lançamento de outro grande hit no console – Sonic The Hedgehog 2), com temas musicais influenciadas pelos gêneros eletrônicos que faziam sucesso nos EUA na época – segundo Koshiro, que contou com a ajuda de Motohiro Kawashima, ele compôs os temas musicais pensando no público norte-americano, onde o Genesis (o Mega Drive americano) fazia muito sucesso – como house, techno, hardcore techno, entre outros. O resultado é um verdadeiro “nightclub” noventista dentro do Mega Drive, que fornece o clima perfeito para o jogador caminhar pelas fases e distribuir porrada nos vagabundos ordinários!

A Sega recebeu a música de Streets of Rage muito bem. Então, eu queria que a sequência continuasse de onde parou. O som de nightclub é algo que está em constante mudança. A música que eu fiz para Streets of Rage 2 foi mais techno do que o primeiro jogo. Isso é porque eu estava ouvindo mais techno e hard techno quando ia aos clubes, e estava cada vez mais popular. Eu queria trazer novos sons, ao invés de tentar levá-lo para o próximo nível. Eu esperava fazer soar mais atualizado. Não só isso, mas a house music tinha evoluído, bem como a techno, inclinando-se para o funk”, explicou o compositor em entrevista para o documentário de músicas de games japonesas “Diggin’ In The Carts”, de 2014.

Se você está se perguntando o que mudou exatamente, foi o desenvolvimento dos samplers naquela época. Um estilo incorporando música funk antiga, música étnica e tal, com batidas dos 808 e 909 [caixas de ritmo muito utilizadas nas músicas eletrônicas dos anos 80/90], estabeleceu-se, e que se viu muita evolução. Eu queria reproduzir isso em Streets of Rage 2. Eu fiz um monte de diferentes sons de percussão com o chip FM [utilizado pelo Mega Drive]. Eu tentei colocar as batidas em arranjos mais complexos. O sintetizador foi o mesmo também. Na época não havia apenas batidas, mas uma máquina de baixo Roland chamado TB-303 também“, completou.

o design da voadora de Blaze mudou no lançamento ocidental, para deixá-la mais “comportada”

Desta vez a questão é pessoal!

A história de “Streets of Rage 2” começa um ano depois que os jovens ex-policiais, Axel Stone, Blaze Fielding e Adam Hunter desmantelaram o império do crime do Sindicato e destruíram o seu líder, o misterioso Mr. X. A cidade que uma vez estava no ápice da violência e do crime, agora estava segura. A paz reinava novamente nas ruas; os habitantes puderam retornar aos locais que tinham sido obrigados a abandonar, e a cidade voltou a prosperar.

No aniversário da destruição do Sindicato, Adam, Axel e Blaze encontraram-se em seu bar favorito para comemorar a ocasião e para pôr as novidades em dia. Tanto Axel como Blaze haviam se mudado da cidade; Axel agora trabalhava como guarda-costas, e Blaze como professora de dança. Adam tinha voltado aos quadros da polícia, e mudara-se para um pequena casa na periferia da cidade, com seu irmão menor. Os três comemoraram até altas horas da madrugada, e fizeram planos para se encontrarem no mesmo lugar no próximo ano.

Porém, enquanto se preparava para acertar as contas no hotel no dia seguinte, Axel recebeu um telefonema de Eddie “Skate” (ou Sammy no Japão) Hunter, o irmão de Adam. Ao chegar da escola, ele encontrara sua casa totalmente destruída. Já havia se comunicado com a polícia, mas ninguém havia visto ou tido notícias de seu irmão desde o início daquela manhã. Axel e Blaze imediatamente se dirigiram para a casa do amigo.

As janelas estavam despedaçadas e a mobília destruída. Havia uma foto pregada no que sobrara da porta de entrada: Adam acorrentado e todo arrebentado, estirado aos pés de um homem que eles facilmente reconheceram: Mr. X.

O desaparecimento de Adam marcou o início de um grande pesadelo. Um bando de criminosos e punks tomaram as ruas da cidade. As gangues dominaram os parques e motoqueiros transformaram um simples passeio noturno pelas ruas da cidade em um campo de batalha mortal. Espancamentos, pilhagens e destruição se tornaram comuns em plena luz do dia. O caos voltou a reinar, pior do que antes, tomando conta de todos os espaços. O mal que estava escondido nas sombras uma vez mais cairia sobre a cidade.

Axel e Blaze tentaram localizar seus antigos companheiros da corporação de polícia, que um dia haviam fornecido suporte de artilharia pesada. Mas todos eles ou haviam sido transferidos ou demitidos. Desta vez, o Sindicato mantinha o controle total, e os dois ex-tiras ficaram por sua conta própria.

Axel e Blaze partiram para ajudar seu leal companheiro, e junto a eles se juntaram Max Thunder, um amigo de Axel e campeão de luta livre e o irmão mais novo de Adam, Skate. Juntos, decidiram resgatar o amigo e destruir Mr. X de uma vez por todas. Em seu caminho está a mais sinistra coleção de punks e arruaceiros jamais formada. A isto, some-se um pelotão de lutadores profissionais especialmente treinado para liquidá-los!

Pancadaria com estilo!

A Sega caprichou nos gráficos e visuais na sua continuação. Os sprites são enormes, bem animados e cheios de detalhes, especialmente dos quatro personagens principais, que possuem muitas animações de movimento. Aliás, como já dito, o design artístico foi concebido por Ayano Koshiro, um trabalho que realmente merece reconhecimento e os nossos parabéns.

Além dos quatro heróis, os bandidos e chefes de fase estão bem variados e melhores do que nunca, com cabelos, roupas e movimentos bem diferentes um do outro. Destaque para o “barman” nada amigável e Shiva, o braço direito de Mr. X, que também marca presença no terceiro game.

Os cenários de fundo ficaram ainda mais minuciosos e coloridos, com pequenos detalhes se mexendo, como lanternas piscando, as luzes da cidade, plantas se mexendo, o belíssimo efeito de chuva, num total de oito fases bem variadas e longas, passando por diversas partes da cidade. Se prestar atenção, é possível enxergar detalhes como objetos dentro de lojas, bar, nos muros, paredes, etc.

Distribuindo porrada nas Ruas da Fúria!

Tão importante quanto os gráficos e trilha sonora, a jogabilidade em “Streets of Rage 2” conta com uma movimentação suave e precisa, que responde rapidamente aos comandos. Cada personagem tem vários golpes, normais e especiais (consomem um pouco de energia), além de cada um ter suas características.

Por exemplo, Blaze é bem equilibrada, Axel é forte mas o seu pulo é fraco, Max é uma montanha de músculos, e tão ágil quanto uma e Skate é fracote mas bem ágil (o único com a opção de “correr” com dois toques no direcional). O ideal é jogar com todos os personagens e testar os seus golpes para ver qual mais se adapta ao seu estilo. E claro, temos a opção para dois jogadores simultâneos na tela, o que deixa tudo ainda mais divertido.

Além dos tradicionais itens que recuperam energia, nossos lutadores de rua contam também com algumas armas que são encontradas pelo caminho. Temos a faca, ideal para fatiar, cortar e arejar os cafajestes a curta distância. O cano é uma ótima escolha para dar pancadas na cabeça dos marginais e ainda fazer um som maneiro. Temos também a Kunai, arma ninja parecida com um shuriken, que funciona tão bem quanto uma faca. E a melhor de todas, a Katana, espada japonesa que irá fazer picadinho de quem ficar na sua frente. Só faltou mesmo a garrafa, afinal, nada melhor do que arrebentar uma na cabeça de um bandido!

Há vários tipos de inimigos, cada um com uma quantidade de energia e golpes diferentes. Para quem gosta de desafios, basta aumentar a dificuldade do game e assistir como a tela fica completamente cheia de capangas – e o melhor de tudo, sem lags ou slowdowns.

Streets of Rage 2” é uma obra-prima da Sega, um clássico do gênero pancadaria 2D que faz inveja a muitos dos seus rivais. Passe pelas ruas e becos imundos infestados de punks, inferninhos cheios de vagabundos, parques, ringues e outras pedaços cheios de marginais fedorentos aguardando para te enfrentar. Aprecie os belos gráficos, deixe-se levar pelo ritmo das músicas alucinantes de Yuzo Koshiro. Encante-se com a Blaze, a gata que deixou saudades no mundo dos games, destrua com Axel, Max e Skate, e principalmente, divirta-se jogando com um amigo, mas cuidado pra não descer porrada nele por engano, geralmente isso não acaba bem.

  • Gustavo

    A trilha sonora de SOR2 é incrível, sempre que eu ouço eu volto no tempo.

  • And

    Um dos meus jogos favoritos do Mega Drive! A trilha sonora realmente é matadora!