Muitos jogadores devem concordar que um dos maiores clássicos que o Mega Drive tem em sua biblioteca de jogos é o de pancadaria “Streets of Rage” (Bare Knuckle no original em japonês – leia aqui algumas curiosidades sobre ele e uma entrevista com o seu diretor) – quem não se lembra do trio Axel, Adam e Blaze quebrando o pau nas ruas da cidade para derrotar um sindicato criminoso que está aterrorizando a todos?

A história não prima pela originalidade (seguindo o padrão de vários filmes americanos dos anos 80/90), mas cumpre o seu papel em um game beat’m up e tem um desenrolar bastante bom durante o jogo. A introdução nos mostra que uma cidade já foi um lugar feliz e tranquilo, até que um dia uma poderosa organização criminosa tomou conta. O líder deste sindicato conseguiu se manter no anonimato, e de longe controla o governo e até mesmo a polícia corrupta. Logo a violência e destruição se espalharam e ninguém mais está seguro nas ruas.

É nesse caos que três jovens policiais juraram limpar o local, desistindo de suas carreiras da força policial corrupta em que estavam e colocando suas próprias vidas em jogo nas violentas “ruas da fúria”. São eles:

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Adam Hunter é um ex-policial e boxeador. Ele é bem mais lento do que os outros personagens, porém é o mais forte. Esta é a única aparição de Adam como um personagem jogável na série, porém seu irmão caçula, Skate, aparece nos outros jogos.

Axel Stone é um ex-policial e artista marcial. Ele é o mais equilibrado dos três personagens: mais lento que Blaze porém mais rápido do que Adam, e mais forte do que Blaze mas mais fraco que Adam. Seu único atributo negativo é a sua capacidade de salto em comparação com os outros personagens. Axel, junto com Blaze, aparece com destaque em cada jogo da série “Streets of Rage”.

Blaze Fielding é uma ex-policial e especialista em judô. Ela é um pouco mais fraca do que os outros personagens, mas é a mais ágil dos três, podendo saltar mais alto e se movimentar mais rápido.

Back-Up Enforcer (não selecionável) não é um personagem jogável e só é visto durante o “ataque especial” e durante os créditos finais. O policial “Robocop” secretamente se aliou aos três personagens e fornece apoio armado a eles ao longo do jogo.

Assim os três foram às ruas atrás do misterioso Mr. X, o líder do sindicato criminoso. Mas para chegar até ele, os lutadores devem passar por subúrbios, praias, um navio, uma fábrica e até um gigantesco elevador de frete até chega ao quartel general do vilão.

E como eles são ex-policiais, devem estar cheios de armas, certo? Não mesmo, é tudo na base da porrada, com a possibilidade de pegar uns canos, tacos, facas e garrafas pelo caminho para acertar os marginais que entrarem na sua frente – mas cuidado que os bandidos também podem usar essas armas.

Para o uso de armas há o “ataque especial” do policial parceiro, em que o cara dá um tiro de bazuca ou metralhadora, matando todos os inimigos na tela. Isso, para a época, foi algo bem inovador e que agradou bastante os fãs.

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na hora do aperto, chame o policial parceiro

A jogabilidade é suave e precisa, com os comandos respondendo rápido aos ataques, seja socos, chutes ou voadoras, o que torna a diversão mais agradável e divertida, inclusive com dois jogadores na tela ao mesmo tempo, sendo possível realizar golpes combinados com os dois personagens.

A variedade de inimigos não é muito grande, com marginais saídos diretamente do túnel do tempo dos anos 90, com bandidos usando jaquetas de couro, moicanos e até mulheres com chicote prontas para te ensinar uma lição ou duas.

Há alguns outros que se tornaram tradicionais na série, como uns gorduchos que soltam fogo pela boca (e incrivelmente rápidos, para o tamanho deles) e japas karatekas, mas no geral, à medida que se avança nas fases, os inimigos apenas mudam a cor da roupa e ficam mais fortes.

Porém, os chefões de fase são o ponto alto, com figuras bem criativas que podem dar um pouco mais de dor de cabeça, como o chefão dos bumerangues na primeira fase, o sósia do Freddy Krueger na segunda e gigantescos lutadores de luta-livre, só para citar alguns.

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não tenha pena e desça o braço na maloquerada e seus irmãos gêmeos

Apesar de não utilizar toda a capacidade gráfica do Mega Drive, “Streets of Rage” faz um excelente trabalho na parte visual, impressionando a galera que o jogou quando foi lançado em 1991. Cenários bem trabalhados e alguns pontos contando com belos efeitos, simples, mas que adicionavam algo a mais.

Seja um outdoor/placa de uma boate/bar piscando ao fundo de uma rua, uma latinha rolando nas areias da praia, uma chuva caindo no meio da pancadaria, as luzes e agitação da cidade piscando lá longe, um papel voando no vento, um cano estragado pingando água, e assim por diante. São os pequenos detalhes que fazem a diferença, e “Streets of Rage” é cheio deles, um deleite para os mais atentos. Os personagens possuem um bom número de detalhes e animações, garantindo um pacote visual satisfatório.

No entanto, um dos maiores destaques do game definitivamente é a sua trilha sonora, composta pelo toque refinado de Yuzo Koshiro, que mostra para o que veio já no excepcional tema de abertura, certamente uma das músicas mais antológicas da história dos games. Não acredita? Escute no vídeo abaixo então.

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enfrentando a bandidagem com muito estilo!

Mas não apenas a música de abertura, mas todas as composições impressionam pela sua qualidade musical, coisa que Yuzo Koshiro já havia demonstrado em outro jogo para Mega Drive, “The Revenge of Shinobi” (leia aqui algumas curiosidades e entrevista com o diretor). Koshiro que adorava uma baladinha nos anos 90, compôs uma trilha sonora que segue uma linha techno-rock, misturando batidas eletrônicas com guitarras e piano, criando a atmosfera perfeita para o jogador avançar de fase e continuar distribuindo porrada. Os efeitos sonoros são básicos para o estilo do jogo, com sons de porrada, gritos de ataque e morte.

Algo bem interessante foi a opção de dois finais diferentes para a aventura. Enquanto o final “good” poderia ser conquistado simplesmente finalizando normalmente o jogo, o “bad ending” só podia ser visto quando se joga no modo para dois jogadores e quando se confronta o chefão final.

Ele pergunta aos jogadores se gostariam de se juntar em sua organização criminosa, e se um responder “sim” e o outro “não”, os dois deverão lutar um contra o outro. Se aquele que respondeu “sim” vencer, e depois derrotar o chefão (nem ele se safa), esse personagem senta-se no trono de Mr. X e torná-se o novo rei do crime do crime. Bacana não?

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jogo tem opção de você se transformar no novo rei/rainha do crime!

O jogo fez tanto sucesso que rendeu duas sequências, uma quarta para Saturn estava prevista e chegou a entrar em desenvolvimento numa parceria entre a Sega e a Core Design, mas após um desentendimento entre as duas empresas o projeto foi cancelado e a Core reuniu o material e deu nova roupagem sob o nome de “Fighting Force”, lançado em 1997 para PlayStation e N64.

Recentemente um grupo de fãs chamado Bombergames disponibilizou gratuitamente o jogo “Streets of Rage Remake”, que trazia personagens, cenários e inimigos de todos os jogos da série, além de uma infinidade de extras somando mais de 100 fases. Porém o jogo foi rapidamente tirado do ar a pedido da Sega, que alegou estar protegendo os seus direitos de propriedade intelectual.

Streets of Rage” é um dos maiores clássicos do Mega Drive e fez a cartilha de muitos games de luta que foram lançados depois. Ele oferece tudo aquilo que um old school gamer que se preze gostaria de jogar em um título de pancadaria 2D. Divertido e com uma ótima qualidade técnica, o jogo é recomendado para todos aqueles que prezem por um título pra lá de especial e inesquecível!
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